Cicatriz em L na mastopexia: quando a gente escolhe esse caminho
A escolha da cicatriz não é sobre estilo do cirurgião, é sobre o que cada mama precisa. E entender essa lógica muda completamente a conversa do consultório.
Quem chega no consultório para falar de mastopexia geralmente já leu alguma coisa por aí, e quase sempre já ouviu nomes de cicatrizes diferentes. Periareolar, vertical, em L, em T invertido. A pergunta que vem junto é a mesma: “qual é a melhor?”. Por aqui, a gente devolve a pergunta de outro jeito. Não existe uma “melhor” no abstrato, existe a que cabe na sua mama, no seu grau de ptose, no seu tipo de pele e no resultado que faz sentido para você.
Hoje a gente quer abrir uma dessas portas: a cicatriz em L. Ela aparece bastante nas conversas porque é uma escolha que tenta unir duas coisas que parecem opostas, dar suporte e elevação suficientes para uma ptose que já passou da fase mais leve, mas sem deixar uma cicatriz que cruze toda a base da mama. Vamos contar, com calma, de onde ela veio, em quais casos faz sentido e o que a literatura mostra de longo prazo.
Por que existem várias formas de cicatriz na mastopexia
Antes de falar do L, vale entender o porquê dessa variedade toda. A mastopexia, ou lifting de mama, é uma cirurgia que reposiciona o complexo aréolo-papilar, retira o excesso de pele e remodela o tecido para que a mama volte a um formato mais elevado e firme. Como cada mama chega com uma quantidade diferente de pele sobrando, com uma posição diferente do mamilo e com um volume diferente, a cicatriz precisa acompanhar essa lógica.
A literatura organiza as técnicas pelo tipo de marca que elas deixam. Bostwick descreveu, há anos, uma forma simples de pensar isso: cicatriz unidimensional (só ao redor da aréola), bidimensional (ao redor da aréola mais uma linha vertical) e tridimensional (ao redor da aréola, vertical e algum componente horizontal no sulco da mama). É dessa terceira família que saem as cicatrizes em L, em J, em T invertido e em T longo, conforme descreve a referência StatPearls de mastopexia.
Resumindo de um jeito que ajuda na consulta:
- Periareolar (Benelli): só ao redor da aréola. Boa para ptose muito leve, quando o mamilo precisa subir pouco.
- Vertical (Lassus, Lejour): ao redor da aréola e uma linha vertical até o sulco, parecida com um pirulito. Indicada para ptose moderada.
- Em L (Chiari, Hollander, Regnault B): periareolar, vertical e um ramo curto horizontal no sulco. Pensada para ptose moderada quando o T invertido seria longo demais para o caso.
- T invertido (Wise, âncora): periareolar, vertical e horizontal completa no sulco. Indicada para ptose severa, mamas grandes e quando há muita pele para retirar.
A escolha da técnica não é caprichosa. Ela responde a três perguntas básicas: quanta pele precisa sair, quanto o mamilo precisa subir e qual o formato final desejado. A cicatriz em L é uma resposta específica para uma combinação específica dessas variáveis.
O que é, exatamente, a cicatriz em L
A cicatriz em L tem três pernas. Imagine um L deitado sobre a mama: uma volta ao redor da aréola, uma linha vertical descendo dela até o sulco mamário, e um ramo curto horizontal que segue na direção da axila, dentro do sulco. É esse ramo curto, deitado, que dá o nome à técnica.
O ponto importante, e essa é a frase que mais ouvimos no consultório, é que a perna horizontal fica curta e escondida no sulco. Ela não atravessa toda a base da mama nem desce em direção à linha média do tórax. Em pé, sob o sutiã, costuma ficar invisível.
De onde a técnica veio
A cicatriz em L tem uma história longa. Hollander é citado como o primeiro a descrever uma incisão nesse formato. Depois, Paul Regnault descreveu a chamada técnica B, com modificação semelhante, conforme o trabalho clássico publicado em 1989 (Regnault P, Aesthetic Plastic Surgery, 1989).
Em paralelo, Claude Lassus, um cirurgião francês, vinha desenvolvendo desde 1970 uma mastoplastia vertical, em que a marca era uma linha pura, sem nenhum braço horizontal. Em sua série pessoal de 30 anos, com 710 pacientes operadas entre 1964 e 1994 (Lassus C, Plast Reconstr Surg, 1996), Lassus mostrou que a vertical pura pode dar bons resultados de longo prazo. Mas em alguns casos, principalmente quando havia mais pele a ressecar, a cicatriz vertical acabava cruzando o sulco em direção ao abdome, o que ninguém quer.
Foi para resolver justamente esse problema que entrou em cena a extensão horizontal curta no sulco. No Brasil, Aristóteles Chiari Jr. foi quem mais sistematizou o uso da cicatriz em L, e a técnica brasileira é referenciada na literatura internacional pelo trabalho publicado em 2004 (Chiari Jr A et al., Aesthetic Surgery Journal, 2004). De lá para cá, a técnica em L se espalhou e ganhou variantes, sempre com a mesma lógica: periareolar, vertical e um braço curto, lateral, escondido.
Quando faz sentido escolher o L (e quando não)
A indicação clássica da cicatriz em L é a ptose grau I e II, na classificação de Regnault. Em uma ptose grau I o mamilo já chegou na altura do sulco. Em uma ptose grau II ele passou um pouco do sulco, mas ainda não é a parte mais baixa da mama. Esses são os cenários em que a cicatriz em L tende a render bem, conforme descrevem séries brasileiras de longo prazo, como o trabalho da RBCP que reuniu mais de 30 anos de experiência (RBCP, indicações e limites da mamoplastia em L).
Em ptoses muito severas, com excesso enorme de pele, a cicatriz em L pode ficar curta para tudo o que precisa ser retirado, e o T invertido se justifica. No outro extremo, em ptoses muito leves, em que basta uma correção pequena na altura da aréola, uma técnica periareolar ou vertical pura pode ser suficiente, e não há motivo para acrescentar um ramo horizontal.
Por aqui, quando a gente pensa em cicatriz em L, costuma haver alguns sinais clínicos que ajudam:
- Mama com excesso de pele moderado, mas não enorme.
- Mamilo que precisa subir alguns centímetros, mas não chega a ser uma “queda longa”.
- Pacientes que querem desviar de uma cicatriz que cruze toda a base da mama.
- Casos em que se planeja preservar bem o pedículo do mamilo para manter sensibilidade e, em algumas situações, função lactacional.
Se o exame mostra que o L não dá conta, a gente fala disso na consulta. Honestidade aqui economiza retoque depois.
Como fica o resultado, segundo os estudos
Esse é o ponto em que muitas pacientes pedem números, e é justo. A literatura tem dados de longo prazo razoáveis sobre as técnicas que originaram o L.
A série pessoal de Lassus, citada acima, mostra que a mastoplastia vertical, raiz histórica do L, tem resultados duradouros, com mais de 30 anos de seguimento (Lassus, 1996). É um trabalho de referência para qualquer cirurgião que opera mama.
No Brasil, o estudo da mastopexia de aumento em L, publicado na RBCP, acompanhou mais de 500 pacientes operadas entre 1996 e 2003 e descreveu as principais complicações em números: deiscência superficial em 7,3% dos casos, recidiva da ptose em 7,3% e cicatriz inestética em 5,7% (RBCP, mastopexia de aumento em L). Esses são números reais, com técnica consolidada, e ajudam a calibrar a expectativa.
Tradução prática desses números
Deiscência superficial é uma abertura pequena de um trecho da cicatriz, geralmente no encontro das pernas do L. Cicatriza com curativo, demora um pouco mais, mas resolve. Não é catástrofe.
Recidiva de ptose é a mama voltar a cair com o tempo. Acontece em uma minoria dos casos, e parte é fisiologia. A literatura geral mostra que mamas operadas tendem a descer cerca de 1 cm no primeiro ano e isso é considerado natural (revisão sistemática sobre longevidade da correção).
Cicatriz inestética é um aspecto final da cicatriz fora do esperado, alargada, mais clara, mais avermelhada, mais elevada. Boa parte dos casos responde a manejo conservador, com silicone, massagem e tempo.
Trabalhos mais recentes seguem confirmando que a técnica em L, quando bem indicada, é segura. A revisão Multiplane L-Scar Augmentation Mastopexy, de 2023, descreve resultados consistentes em mastopexia com prótese pela via em L (PubMed, 2023). E uma série sobre a técnica em L para hipertrofias, publicada na RBCP, traz a mesma lógica aplicada à mamoplastia redutora (RBCP, mamoplastia redutora em L).
Quando se olha o quadro maior, a satisfação geral com mastopexia é alta. Uma revisão sistemática com 1.888 pacientes mostrou que menos de 2% das pacientes relataram insatisfação com a forma final da mama, com taxa global de complicações em torno de 10,4% (J Plast Reconstr Aesthet Surg, 2019). Os autores ressaltam que as complicações mais comuns são as relacionadas à própria cicatriz e a alterações no complexo aréolo-mamilar, justamente o que precisa ser conversado antes da cirurgia.
Cicatriz em L com prótese e sem prótese
Outra dúvida que aparece muito é se a cicatriz em L só serve para mastopexia sem prótese. Não serve só para isso. A técnica é compatível com os dois cenários: pode ser feita em uma mastopexia sem prótese, em que a gente usa o próprio tecido da paciente para preencher o polo superior, e também em uma mastopexia com prótese, em que se associa um implante para devolver volume.
Cicatriz em L com tecido próprio
- Reposiciona o mamilo e remove a pele excedente
- Pode usar retalho do próprio tecido para reforçar o polo superior
- Mantém o volume da paciente, sem implante
- Indicada quando a paciente tem volume suficiente e não quer prótese
Cicatriz em L com implante
- Combina elevação com aumento de volume
- Útil quando há perda de tecido após gestação ou variação de peso
- Permite ajustar projeção do polo superior
- Exige planejamento cuidadoso de bolsa, escolha do implante e fechamento
Em revisões internacionais sobre augmentation mastopexy de tempo único (com prótese e elevação na mesma cirurgia), os números mais recentes mostram taxas de complicações em torno de 13% e recidiva de ptose ao redor de 5%, com diferenças entre técnicas (Stevens WG et al., Plast Reconstr Surg, 2014). Essas referências ajudam a desenhar expectativa, sempre individualizada.
Não existe regra fixa: “se for sem prótese, é L; se for com prótese, é T”. O que orienta a escolha da cicatriz é a anatomia da mama, não a presença ou ausência do implante.
O que perguntar na sua consulta de mastopexia
Quando uma paciente chega para falar de cicatriz em L, a gente costuma sugerir que ela leve algumas perguntas em mente. Não para pegar o cirurgião de surpresa, mas para que o tempo da consulta renda mais.
- Qual é o meu grau de ptose, e por que essa técnica é a melhor opção para mim?
- Qual será o trajeto exato da cicatriz na minha mama?
- Quais são os cuidados específicos com a cicatriz no meu caso?
- O que pode acontecer se a cicatriz não fechar perfeitamente, e como vamos resolver?
- Como vai ser feita a preservação do mamilo e da sensibilidade?
- Tenho desejo de amamentar no futuro? (essa pergunta muda o planejamento)
- Em quanto tempo vou poder retomar minhas atividades normais?
Sobre a amamentação, vale uma nota. A literatura mostra que a mastopexia pode reduzir a taxa de sucesso de amamentação em gestações futuras, comparada com mulheres que engravidaram antes da cirurgia (Ann Chir Plast Esthet, 2024). Por isso, se você ainda planeja ter filhos e amamentar, esse desejo precisa entrar na conversa antes da decisão cirúrgica. Nem sempre o melhor é operar agora.
Cuidados pós-operatórios da cicatriz
A cicatriz é um trabalho de paciência. Ela termina de “acomodar” entre 6 e 12 meses, e o aspecto final só deve ser julgado nesse horizonte. No primeiro mês, o que se vê é uma linha avermelhada, ainda imatura. Nos meses seguintes, ela costuma clarear, achatar e ficar mais discreta.
O cuidado de primeira linha, do ponto de vista da literatura, é o silicone, em folha ou em gel, aplicado após a cicatrização total e a retirada dos pontos. Uma revisão Cochrane consolidou esse consenso, mostrando benefício do silicone para prevenção e tratamento de cicatrizes hipertróficas e queloides (O’Brien L, Jones DJ, Cochrane Database). Não há diferença significativa entre folha e gel em eficácia, o gel costuma ser mais cômodo no dia a dia, principalmente em região de mama.
Outras orientações que costumam aparecer no nosso pós-operatório:
- Evitar sol direto na cicatriz por meses, com proteção física, roupa, fita ou silicone, e protetor solar quando indicado.
- Usar o sutiã pós-cirúrgico pelo tempo combinado, sem fio, com sustentação adequada.
- Não puxar, esfregar ou massagear a cicatriz nos primeiros dias. A massagem entra depois, conforme orientação.
- Aceitar que o aspecto vai mudar várias vezes ao longo do primeiro ano, e que cicatriz feia nos primeiros 30 dias não é o desfecho final.
O cuidado da cicatriz é um capítulo grande, e a gente vai aprofundar isso em outro post da série, com calma.
Considerações finais, e quando vale uma consulta
A cicatriz em L é uma das ferramentas que a gente tem para resolver o problema de uma mama caída, em casos de ptose moderada. Ela tenta o melhor de dois mundos: dar suporte e elevação suficientes, e ao mesmo tempo evitar uma cicatriz longa que cruze toda a base da mama. É uma técnica antiga, com história longa de uso no Brasil e fora dele, e com literatura científica suficiente para sustentar a indicação quando ela é correta.
A escolha entre L, vertical pura, T invertido ou outra variação é uma decisão clínica. Ela depende do exame, da quantidade de pele a retirar, do quanto o mamilo precisa subir, do desejo da paciente em relação ao volume e do plano para gestações futuras. Não é uma escolha que se faça por foto, por moda, ou por preferência abstrata.
Se você está pensando em mastopexia, com ou sem prótese, e quer entender qual é o melhor caminho para a sua mama, esse é o tipo de conversa que vale uma avaliação presencial. A gente examina, mede, conversa, e desenha o plano junto com você.
Para se aprofundar nas opções, os textos sobre mastopexia sem prótese e mastopexia com prótese ajudam a entender qual cenário se aproxima mais da sua história.
Quer entender qual técnica de mastopexia faz mais sentido para você?
A gente avalia presencialmente, examina a sua mama, conversa sobre o que você quer e desenha o plano com calma. Sem pressa, sem promessa, com o tempo que a decisão merece.
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Fontes
Toda alegação numérica e técnica usada neste texto está apoiada na literatura científica abaixo. Os links abrem em nova aba.
- Lassus C. A 30-year experience with vertical mammaplasty. Plast Reconstr Surg, 1996. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8559820
- Regnault P. The Regnault “B” technique in mastopexy and breast reduction: a 12-year review. Aesthet Plast Surg, 1989. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2741755
- Chiari Jr A et al. Mammaplasty With L-Incision. Aesthetic Surgery Journal, 2004. academic.oup.com/asj/article/24/2/102
- RBCP. A mastopexia de aumento em L. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. rbcp.org.br/details/3297
- RBCP. Mastopexia em L. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica. rbcp.org.br/details/1162
- RBCP. Indicações e limites da mamoplastia com cicatriz em L: experiência de 30 anos. rbcp.org.br/details/1912
- Multiplane L-Scar Augmentation Mastopexy. PubMed, 2023. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37335763
- Mastopexy (Breast Lift). StatPearls, NCBI Bookshelf. ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK610682